Quando se fala em maternidade atípica e TEA, a primeira imagem que costuma vir à mente é a da mãe “neurotípica” que cuida de um filho neurodivergente. Mas existe um segundo polo, tão importante quanto o primeiro e ainda menos discutido: o da mãe que é ela própria neurodivergente: autista, com TDAH, dislexia, dispraxia, síndrome de Tourette ou outro perfil de neurodesenvolvimento. Aqui, o desafio não está em aprender a cuidar de alguém diferente do esperado, mas na interação entre as exigências da maternidade e um sistema nervoso que processa o mundo de um jeito único.
O grupo é amplo e heterogêneo: mulheres autistas, com TDAH, dislexia, dispraxia, síndrome de Tourette, entre outras condições, cada uma com impactos diferentes na experiência da maternidade. É comum, inclusive, a coexistência: entre 30% e 80% das pessoas diagnosticadas com TDAH também são autistas, o que faz do TDAH a comorbidade mais frequente do autismo.
A maioria das mulheres neurodivergentes só recebe seu diagnóstico na vida adulta e, com frequência, depois do diagnóstico do próprio filho. É comum que, durante a investigação da criança, a mãe se reconheça nos mesmos padrões de comportamento e levante a própria suspeita.
Mulheres autistas costumam ser diagnosticadas, em média, seis anos depois dos homens. E mulheres com TDAH são frequentemente diagnosticadas antes com outra coisa — um quadro de ansiedade generalizada ou de depressão — porque os sintomas nelas se apresentam de forma diferente do padrão mais estudado em meninos e homens.
Esse atraso tem consequências dramáticas, porque o risco de depressão e ansiedade pós-parto é duas vezes maior entre mães autistas e com TDAH, e 53% das mães autistas relatam dificuldade com a amamentação.
Uma peça central para entender essa mãe é o mascaramento, ou *masking*: a supressão, consciente ou não, de comportamentos neurodivergentes na tentativa de “parecer normal”. É um fenômeno mais intenso em mulheres e meninas, um dos motivos pelos quais o diagnóstico nelas demora tanto: elas simplesmente chamam menos atenção.
O problema é que esse mascaramento crônico tem um custo alto:
A maternidade costuma exigir exatamente o que a neurodivergência dificulta: multitarefa constante, flexibilidade diante do imprevisível e tolerância a um processamento sensorial intenso — o choro do bebê, novos cheiros, texturas de alimentos, o contato físico contínuo da amamentação.
Além disso, a rotina que ela tinha e que antes ajudava essa mulher a compensar o mascaramento, como horários previsíveis de trabalho, de sono, de refeições, costuma desmoronar com a chegada de um bebê, que tem sua própria lógica de sono e fome. É por isso que, para muitas mulheres, é justamente na maternidade que a própria neurodivergência se revela, às vezes através de um colapso emocional que lembra um burnout.
Alguns exemplos concretos do que essa sobrecarga sensorial pode significar na rotina: o choro do bebê pode ser fisicamente doloroso para uma mãe com hipersensibilidade auditiva; a amamentação, com seu contato físico contínuo, é relatada como difícil por mais da metade das mulheres autistas.
Algumas estratégias práticas e de baixo custo ajudam bastante:
Apesar de todos os desafios, a neurodivergência também traz recursos importantes para a maternidade. Um estudo da Johns Hopkins, de 2025, mostrou que mães autistas pesquisadas amavam profundamente a experiência de ser mães e demonstravam resiliência notável na defesa do próprio cuidado.
Entre as forças mais citadas:
Se você se reconhece nesses relatos todos, seja pela suspeita de uma neurodivergência própria, seja pelo cansaço de mascarar quem você é para dar conta da maternidade atípica, considere agendar uma consulta com a Dra. Lorrane Morais. *[inserir aqui especialidade, cidade de atendimento e/ou formato online, e link/telefone de agendamento]*
A maternidade de uma mulher neurodivergente carrega desafios próprios, sensoriais, executivos e de identidade, que raramente são nomeados. Mas também carrega forças reais: empatia, atenção aos detalhes e uma capacidade única de compreender e defender o próprio filho. Reconhecer essa neurodivergência, ainda que tardiamente, não invalida a mulher que ela sempre foi, somente abre espaço para uma maternidade mais autêntica e mais sustentável.
Leia também: [Maternidade Atípica: Quando o Filho é Neurodivergente] e [Burnout Autístico na Maternidade: Sinais e Cuidado].