“Posso tomar alguma coisa para a ansiedade agora que estou grávida?” Essa é uma das perguntas que mais escuto de gestantes no consultório. E ela costuma vir carregada de medo: medo de prejudicar o bebê se tomar o remédio, culpa por não estar tão leve quanto gostaria, vergonha de não estar dando conta sem suporte medicamentoso.
A resposta honesta pra esse tipo de pergunta é: “depende”. Existe remédio para ansiedade na gravidez que pode ser usado com acompanhamento, existem remédios que pedem mais cautela e existe um ponto que muita gente esquece: a ansiedade sem tratamento também tem riscos. Neste artigo, explico o que os estudos mostram e como essa decisão é tomada.
Uma revisão de estudos que reuniu milhares de gestantes mostrou que a ansiedade na gestação está associada a mais parto prematuro, baixo peso ao nascer e bebês pequenos para a idade gestacional. Os autores concluíram que a ansiedade patológica na gravidez “não é benigna”. E não digo isso pra que se sinta mais culpada ainda ou para que entre em desespero, mas sim pra que saiba que um cenário como o seu é estudado cientificamente e há alternativas melhores do que ter crises repetidas durante sua gestação.
Por isso, a pergunta inicial pode ser adaptada, saindo do básico “o remédio tem risco?”, e partindo para o raciocínio “qual é o risco de não tratar? Qual ‘risco’ vamos escolher?”. A decisão sempre compara os dois lados. Se você quer entender melhor como a ansiedade age na gestação, leia: A ansiedade pode atrapalhar na gravidez?
Nem toda ansiedade na gravidez precisa de medicação. Em quadros leves a moderados, o tratamento costuma começar por:
Quando os sintomas são intensos, duram semanas ou atrapalham o sono, o trabalho e o vínculo com a gestação, o remédio passa a ser uma opção a considerar.
Apesar do nome, alguns antidepressivos são o tratamento de base para os transtornos de ansiedade, inclusive na gestação. A diretriz do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas considera os antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) a primeira opção de remédio para depressão e ansiedade na gravidez e no pós-parto.
Eles são uma das classes mais estudadas nessa fase. Como todo remédio, têm riscos e benefícios que precisam ser conversados, e a escolha do medicamento e da dose é individual. Para uma visão geral sobre remédios psiquiátricos na gestação, leia: Mulher grávida pode tomar remédio psiquiátrico?
Os benzodiazepínicos, conhecidos como “calmantes” ou “tarja preta”, aliviam a ansiedade rapidamente. Na gestação, os estudos trazem dois recados diferentes:
Uma revisão crítica dos estudos publicados em uma década não encontrou aumento claro do risco de malformações graves com o uso desses remédios no primeiro trimestre. É uma informação que tranquiliza muitas mulheres que tomaram um calmante antes de saber da gravidez.
Uma meta-análise com 14 estudos encontrou associação entre o uso de benzodiazepínicos na gestação e mais parto prematuro, baixo peso ao nascer e internação do bebê em UTI neonatal. Os próprios autores ressaltam que outros fatores podem explicar parte desses resultados, mas consideram a internação em UTI neonatal um achado relevante.
Na prática, isso significa que os calmantes não são proibidos, mas pedem cautela: quando são necessários, costumam ser usados pelo menor tempo e na menor dose possíveis, com atenção especial perto do parto. E aqui cabe mais uma tranquilização: quanto melhor está o seu tratamento do transtorno ansioso, menor é a chance de você precisar de um calmante benzodiazepínico, porque as crises vão ficando muito mais raras.
Se você descobriu a gravidez usando remédio para ansiedade, não interrompa de repente. Parar sem orientação pode trazer sintomas de abstinência e a volta da ansiedade, às vezes mais forte. O caminho é marcar uma conversa com a psiquiatra para decidir, junto, se o melhor é manter, ajustar a dose, trocar ou reduzir aos poucos.
E se a gravidez ainda está nos planos, melhor ainda: dá para preparar esse caminho com calma. Se está se organizando para isso, leia: Quero engravidar. Preciso parar minhas medicações?
Chás e fitoterápicos parecem inofensivos, mas “natural” não é sinônimo de seguro na gravidez. Muitos não têm estudos suficientes em gestantes, e alguns podem interagir com outros remédios. Antes de usar qualquer um, converse com o seu obstetra ou com a sua psiquiatra.
Acompanho gestantes com ansiedade em Brasília e online, sempre pesando os riscos e benefícios de cada escolha para você e para o bebê. Conheça o acompanhamento com psiquiatra perinatal.
Grávida pode tomar remédio para ansiedade? Pode, quando há indicação. Em geral, a primeira escolha são antidepressivos da classe dos ISRS, que tratam os transtornos de ansiedade. A decisão é individual e compara o risco do remédio com o risco da ansiedade sem tratamento.
Calmante na gravidez causa malformação? Os estudos não mostram aumento claro de malformações graves com benzodiazepínicos no primeiro trimestre, mas há associação com parto prematuro, baixo peso e internação do bebê em UTI neonatal. Por isso, quando usados, costumam ficar na menor dose e pelo menor tempo possíveis.
Tomei calmante antes de saber que estava grávida. E agora? Não se desespere e não pare o remédio de repente. Converse com a sua psiquiatra e com o seu obstetra para avaliar o que foi usado, por quanto tempo e qual o melhor plano daqui em diante.
Posso tratar a ansiedade na gravidez sem remédio? Em quadros leves a moderados, sim: psicoterapia, organização do sono e da rotina e atividade física liberada pelo obstetra costumam ajudar bastante. Quando os sintomas são intensos, o remédio pode ser necessário.
Remédio para ansiedade na gravidez não é proibido, nem deve ser usado sem critério. Antidepressivos costumam ser a primeira escolha, calmantes pedem cautela e a ansiedade sem tratamento também traz riscos. A melhor decisão é a que você toma junto com a sua psiquiatra, com informação de qualidade e sem culpa.
Se você está grávida e a ansiedade está pesando, agende uma conversa.
Médica graduada pela Universidade Federal de Goiás. CRM DF 25961.
Psiquiatra pela FEPECS (Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde | SES-DF). RQE 21009.
Pós-graduada em Análise Comportamental Clínica pelo IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento).
Pós-graduada em Psiquiatria da Mulher (Anhanguera).
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