A cena é muito familiar pra todos nós: alguém compra uma peça de roupa nova, um perfume ou um acessório “para se sentir melhor”. Ou abre a despensa e prepara algo reconfortante, mesmo sem fome física. No início, é só um gesto pontual. Com o tempo, vira hábito. E, quando menos se espera, há um padrão instalado: a compra e a comida deixam de ser apenas prazeres e passam a ser estratégias de regulação emocional.
O que talvez não seja tão visível é que o distúrbio de compras compulsivas (também chamado de compulsive buying-shopping disorder, o CBSD) e os comportamentos alimentares desordenados (restrição, compulsão, compensações excessivas) têm conexões profundas, especialmente quando analisamos o papel da imagem corporal e da autoestima.
Artigo: Interconnected desires: A systematic review of compulsive buyingshopping disorder and its links to disordered eating and body image by gender (Journal of Behavioral Addictions, 2025))
Distúrbio de compras compulsivas (CBSD): não se trata apenas de “gostar de comprar”, mas de um padrão persistente e difícil de controlar, no qual a pessoa gasta mais do que pode, acumula itens que não usa e experimenta uma oscilação emocional clara: euforia durante a compra e culpa logo depois. Está associado a impulsividade, busca por alívio rápido e dificuldade em lidar com emoções negativas.
Comportamentos alimentares desordenados: incluem desde dietas extremamente restritivas até episódios de compulsão alimentar, passando por ciclos de “comer e compensar” (com exercício excessivo ou jejum). Não necessariamente preenchem critérios para um transtorno alimentar formal (como bulimia ou anorexia), mas afetam diretamente o bem-estar físico e psicológico.
Tal estudo mostra que esses dois conjuntos de sintomas não só podem coexistir, mas compartilham gatilhos e mecanismos psicológicos semelhantes.
A cola que liga compras e comida: corpo e autoestima
Nessa revisão científica, fica evidente que, em grande parte dos casos, há um elemento central nos transtornos comórbidos: a insatisfação com a imagem corporal.
Para muitas pessoas, especialmente mulheres, o corpo se torna um “projeto” constante de melhoria, impulsionado por padrões estéticos inatingíveis. A baixa autoestima leva à busca de validação externa: “se eu me vestir melhor, me maquiar mais, mudar minha aparência, serei mais aceita”.
Tanto a compra quanto a alimentação passam a funcionar como atalhos emocionais — um vestido novo para se sentir bonita, um doce para aliviar a tensão.
E há ainda a pressão cultural e de gênero: mulheres são bombardeadas desde cedo por mensagens que associam seu valor pessoal à aparência física e à adequação a ideais de beleza. Esse contexto cria terreno fértil para que consumo e alimentação sejam usados como ferramentas para “corrigir” inseguranças.
O mecanismo comportamental se repete:
É fundamental entender que o sintoma não é o problema central, mas um sinal de que algo mais profundo precisa de atenção.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): ajuda a mapear gatilhos, compreender pensamentos automáticos distorcidos sobre corpo e valor pessoal e desenvolver novas respostas comportamentais.
Terapias de regulação emocional: como mindfulness e terapia de aceitação e compromisso (ACT), úteis para reduzir impulsividade.
Tratamento psiquiátrico: em casos em que há comorbidades como depressão, transtorno de ansiedade, TDAH ou transtornos alimentares, o uso de medicação pode ser indispensável para restaurar o equilíbrio químico cerebral e permitir que a psicoterapia tenha efeito mais consistente.
Negligenciar a dimensão clínica e apostar apenas em “força de vontade” ou “controle” é um risco — especialmente porque esses transtornos tendem a se reforçar mutuamente ao longo do tempo.
Reflexões para quem se identifica com o tema
Você se sente “no controle” só no momento da compra ou da refeição? Isso pode indicar que está usando o comportamento como ferramenta de regulação emocional.
Existe uma relação direta entre como você se vê no espelho e como você gasta ou se alimenta? Reconhecer esse vínculo é o primeiro passo para quebrá-lo.
Você já sentiu que parar de comprar ou mudar hábitos alimentares deixaria um vazio emocional? Esse “vazio” é justamente o que a terapia pode ajudar a entender e preencher de forma saudável.
Olhar para dentro, sem culpa
Comprar e comer são atividades humanas normais e, muitas vezes, prazerosas. O desafio começa quando elas deixam de ser escolhas conscientes e passam a ser respostas automáticas a um mal-estar interno.
Tratar essa relação exige coragem para olhar para dentro e, muitas vezes, pedir ajuda profissional — seja para reconstruir a autoestima, lidar com traumas antigos ou reaprender a se relacionar com o próprio corpo.
No fim, nem o guarda-roupa mais cheio nem a despensa mais abastecida resolvem um coração ou uma mente sobrecarregados. O que resolve é cuidar do que está por trás do impulso, com ciência, consciência e compaixão.