Sou psiquiatra especialista em saúde mental feminina e, com frequência, atendo mulheres que convivem com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Muitas só chegam ao diagnóstico já na vida adulta, justamente quando estão em idade fértil, planejando engravidar ou já se encontram no puerpério. Esse contexto traz dúvidas e inseguranças: “Será que posso usar meu medicamento na gestação?”, “O que acontece se eu parar o tratamento?”, “Como lidar com a sobrecarga mental com um bebê pequeno?”.
Recentemente, tive contato com um artigo publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology (2024) que trouxe um guideline com boas práticas baseadas em evidências importantes sobre o TDAH na gravidez e no pós-parto. Quero compartilhar aqui alguns destaques, na esperança de trazer informação de qualidade e acolhimento a quem vive esse desafio (linkar tbm com o artigo de TDAH mães atípicas).
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta cerca de 3% das mulheres adultas. Na gestação e no puerpério, os sintomas podem se intensificar, já que a vida exige ainda mais planejamento, organização e controle da atenção. Para quem tem TDAH, isso significa enfrentar cansaço, sensação de desorganização e sobrecarga mental, um peso que pode afetar tanto a relação com o bebê quanto o bem-estar da mãe.
Uma das principais preocupações é o uso de medicamentos para TDAH durante a gravidez e a amamentação. Muitos profissionais suspendem automaticamente os estimulantes, por receio de riscos ao bebê. Mas a revisão científica mostra que a interrupção abrupta pode trazer consequências: aumento do risco de depressão materna, prejuízos na rotina e até impacto indireto no cuidado com o recém-nascido.
Embora os fármacos atravessem a placenta, os dados disponíveis até agora são em grande parte tranquilizadores, sem associação consistente com malformações graves. Isso não significa que o uso seja totalmente isento de riscos, mas reforça a importância de uma decisão individualizada, feita entre médica e paciente, pesando riscos e benefícios.
O estudo também aponta para o papel das estratégias não farmacológicas. Ferramentas como terapia cognitivo-comportamental, psicoeducação, coaching especializado para TDAH (este é comum nos EUA, mas raro aqui), mindfulness e rotinas estruturadas podem ser grandes aliadas. Gosto de explicar às minhas pacientes que esses recursos funcionam como “andaimes externos” para sustentar as funções executivas: listas de tarefas, alarmes no celular, calendários visuais, zonas de organização dentro da casa e, claro, apoio da rede de suporte.
Outro ponto que não podemos esquecer é que muitas mulheres chegam ao consultório com queixas de ansiedade ou depressão, mas que possuem um TDAH por trás. Se o TDAH não for identificado, o tratamento pode trazer apenas melhora parcial. Reconhecer o TDAH é fundamental para que o plano terapêutico seja realmente eficaz, especialmente no período da maternidade, quando a sobrecarga é ainda maior.
O que tiro desse estudo e da prática clínica diária é que precisamos falar mais sobre TDAH feminino durante a gestação e o pós-parto. O cuidado deve levar em conta não só os riscos teóricos de um medicamento, mas também os riscos reais de deixar o transtorno sem tratamento. Cada mulher merece uma avaliação individualizada, acolhedora e baseada em evidências.
Se você se identificou com esse tema, saiba que não está sozinha. Estou à disposição para ajudar em consultas de psiquiatria perinatal ou, se preferir, você pode acompanhar mais conteúdos sobre saúde mental feminina aqui no blog. Lhe desejo uma excelente maternidade!