Quando a mente adoece… e quando ela começa a se curar…

Hoje pela manhã, vivi um daqueles encontros de consultório que me lembram exatamente por que escolhi a psiquiatria como missão de vida.

Atendi pela segunda vez uma paciente, mãe de três filhos, puérpera em seu quinto mês. Na primeira consulta, ela chegou profundamente ansiosa. Descrevia um descontrole sobre seus pensamentos nunca antes visto. Eram muitos pensamentos acelerados, ansiosos, catastróficos…

“E se algum dos meus filhos adoecer? E se os 3 adoecerem ao mesmo tempo? E se essa tosse for uma pneumonia grave?”

“E se eu não der conta?”

“E se algo de ruim acontecer?”

O sorriso estava apagado, o brilho nos olhos parecia ter sumido. A vida, antes cheia de sons, risadas e movimento com os filhos, agora estava silenciosa, pesada, cansativa. Tudo era medo, tensão, preocupação.

Iniciamos o tratamento medicamentoso, orientações de sono, autocuidado, pequenas mudanças no dia a dia. E hoje, passadas apenas três semanas, ela me contou:

“Doutora… eu percebi que estava lavando a louça e… me peguei cantando! Fazia tanto tempo que não fazia isso. Tô rindo mais, tô brincando com os meninos, tô conseguindo relaxar, dormir melhor… me sinto mais eu de novo.”

E foi então que eu disse a ela algo que você, que lê este texto, talvez precise ouvir também:

“Isso é o seu cérebro voltando a funcionar.”

 Saúde mental é saúde do cérebro.

Quando um joelho inflama, dói. A gente manca, perde mobilidade, não consegue se abaixar, subir escadas. E ninguém questiona quando o médico indica atestado, anti-inflamatório, fisioterapia ou até cirurgia. Todos entendem que aquele joelho precisa de suporte pra voltar a funcionar.

Na saúde mental é exatamente assim. Quando desenvolvemos um transtorno ansioso, uma depressão, um burnout, nosso cérebro — este órgão maravilhoso e complexo — entra em desequilíbrio bioquímico e funcional.

É como uma articulação inflamada. Só que, no lugar da dor física, surgem pensamentos negativos, angústia, medo, insônia, esgotamento, falta de prazer, desconexão de quem somos.

E assim como um joelho pode ser reabilitado com fisioterapia, medicação e tempo, o cérebro também pode.

O tratamento não te transforma em outra pessoa. Ele te devolve a você mesma. E com ajuda da psicoterapia, te traz, quiçá, uma versão “melhorada”.

Quando começamos o tratamento adequado, seja com medicação, psicoterapia, mudanças no estilo de vida, não é mágica, não é anestesiamento de sentimentos, não é “virar refém de remédios”.

É apenas permitir que seu cérebro retome sua bioquímica natural, sua fluidez, sua capacidade de processar, reagir e viver com equilíbrio.

O sorriso volta. A leveza aparece. A vontade de ouvir música, de brincar com os filhos, de fazer planos. Você volta a ser você.

Maternidade não é leve o tempo todo. E não precisa ser carregada sozinha.

Especialmente na maternidade, onde as cobranças são muitas e o espaço para cuidar de si é quase sempre escasso, é fundamental entender que saúde mental não é luxo. É base. É estrutura.

Quando a mente adoece, ela precisa de cuidado. E quando ela começa a se curar, os sinais aparecem no sono que melhora, na vontade de rir, na leveza de uma música cantarolada enquanto lavamos a louça.

Cuidar da sua saúde mental não é fraqueza. É um gesto de amor: por você, pelos seus filhos, por quem você ama.

Se você percebe que não está sendo mais você mesma, que seu sorriso sumiu, que tudo pesa…

Procure ajuda. Existe caminho. Existe tratamento. Existe volta. E existe vida do outro lado do sofrimento.

Por dra Lorrane Morais, Psiquiatria para mulheres, mães e quem cuida de todos, menos de si.

 
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