Muita gente espera que os primeiros meses com o bebê sejam só de alegria. Mas, para muitas mulheres, o pós-parto também traz uma preocupação que não desliga: medo de que algo aconteça com o bebê, coração acelerado, dificuldade para dormir mesmo quando ele dorme.
No consultório, escuto com frequência a frase “achei que isso era normal de mãe”. Parte da preocupação é, sim, esperada. Mas quando a ansiedade no pós-parto passa a tomar conta do dia e a atrapalhar o descanso, o vínculo e a rotina, ela merece atenção e tem tratamento. Neste artigo, explico como reconhecer os sinais e quando vale buscar ajuda.
Uma grande revisão de estudos, com mais de 220 mil mulheres de 34 países, mostrou que cerca de 15% das mães têm sintomas de ansiedade entre a primeira semana e os seis meses depois do parto. Perto de 1 em cada 10 preenche critérios para um transtorno de ansiedade nesse período.
Ou seja: se você se reconhece neste texto, você não está sozinha, e não é “frescura” nem falta de capacidade para ser mãe.
Os sinais variam de mulher para mulher, mas os mais comuns são:
Algumas mães têm pensamentos intrusivos: imagens ou ideias repentinas de que algo ruim pode acontecer com o bebê. Eles costumam causar muita angústia e culpa justamente porque vão contra o que a mãe deseja. Esse tipo de pensamento é mais comum do que parece e tem tratamento. Falar sobre ele com uma psiquiatra é o primeiro passo para que ele perca força.
O baby blues aparece nos primeiros dias depois do parto, com choro fácil, sensibilidade e oscilações de humor, e costuma melhorar sozinho em até duas semanas.
A ansiedade no pós-parto é diferente: ela dura mais, pode começar semanas ou meses depois do nascimento e atrapalha o dia a dia. Também pode vir junto com sintomas de depressão. Se os sintomas passaram de duas semanas ou estão piorando, vale procurar avaliação. Conheça o blues puerperal.
Não existe uma causa única. Em geral, há uma soma de fatores:
Ter um ou mais desses fatores não significa que a ansiedade vai aparecer, mas ajuda a ficar atenta aos sinais.
O tratamento é individual e pode combinar:
O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recomenda que a saúde mental seja avaliada de rotina na gestação e no pós-parto, justamente porque esses quadros são comuns e tratáveis.
Procure uma psiquiatra se a preocupação toma a maior parte do dia, se você não consegue descansar mesmo quando pode, se tem crises de pânico ou se evita situações por medo.
Importante: se houver pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê, confusão mental ou ideias que não fazem sentido para quem está por perto, procure um pronto-socorro imediatamente ou ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).
Atendo gestantes e mães no pós-parto em Brasília e online. Conheça o acompanhamento com psiquiatra perinatal.
A ansiedade no pós-parto passa sozinha? Às vezes os sintomas diminuem com o tempo, mas quando duram mais de duas semanas ou atrapalham a rotina, o melhor é buscar avaliação. Tratar cedo encurta o sofrimento.
Ansiedade no pós-parto e depressão pós-parto são a mesma coisa? Não, mas podem acontecer juntas. Na ansiedade, predominam a preocupação e o estado de alerta; na depressão, a tristeza, a falta de prazer e o cansaço. A avaliação ajuda a entender o que está acontecendo.
Posso tomar remédio para ansiedade amamentando? Em muitos casos, sim. A escolha do remédio e da dose considera a amamentação, o seu histórico e a intensidade dos sintomas. Essa decisão é individual e precisa de avaliação médica.
Quando a ansiedade no pós-parto costuma começar? Pode começar ainda na gestação, nos primeiros dias depois do parto ou semanas e meses depois. Não existe um prazo fixo.
Sentir preocupação com o bebê faz parte da maternidade, mas viver em alerta o tempo todo não precisa fazer. A ansiedade no pós-parto é comum, tem nome e tem tratamento. Buscar ajuda é uma forma de cuidar de você e também do seu bebê.
Se você se reconheceu neste texto, agende uma conversa.
Médica graduada pela Universidade Federal de Goiás.
Psiquiatra pela FEPECS (Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde | SES-DF).
Pós-graduada em Análise Comportamental Clínica pelo IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento).
Pós-graduada em Psiquiatria da Mulher (Anhanguera).
Dennis CL, Falah-Hassani K, Shiri R. Prevalence of antenatal and postnatal anxiety: systematic review and meta-analysis. Br J Psychiatry. 2017;210(5):315-323. PubMed
Screening and Diagnosis of Mental Health Conditions During Pregnancy and Postpartum: ACOG Clinical Practice Guideline No. 4. Obstet Gynecol. 2023;141(6):1232-1261. PubMed