“Dra., na minha TPM eu não me reconheço, pareço outra pessoa… fico insuportável!” Como psiquiatra com enfoque em saúde mental feminina, escuto essa frase com mais frequência no consultório do que eu gostaria. Muitas vezes, a condição por trás dessa realidade é causadora de muita culpa. Tais mulheres se culpam pelas brigas, pelo choro sem motivo aparente, pela sensação de perder o controle alguns dias por mês ou até pela perda de rendimento nas tarefas.
Ficar mais sensível antes de menstruar é comum e não é doença. Mas, para algumas mulheres, esses dias se transformam em uma crise que se repete todo mês e atrapalha o trabalho, os estudos e as relações. Nesses casos, pode se tratar do TDPM (transtorno disfórico pré-menstrual), um diagnóstico reconhecido pela psiquiatria e que tem tratamento. Neste artigo, explico como diferenciar e o que fazer.
Usamos “TPM” para quase tudo o que acontece antes da menstruação, mas existem graus bem diferentes:
Uma revisão de estudos com mais de 50 mil mulheres estimou que cerca de 3 em cada 100 mulheres têm TDPM quando o diagnóstico é confirmado com um registro diário dos sintomas.
No TDPM, os sintomas aparecem na semana anterior à menstruação, melhoram poucos dias depois que ela começa e somem na semana seguinte. Os principais são:
Junto com eles, costumam aparecer perda de interesse pelas atividades, dificuldade de concentração, cansaço, aumento do apetite (em especial por doces e carboidratos), alterações do sono, sensação de estar sobrecarregada e sintomas físicos como inchaço e dor nas mamas.
Para o diagnóstico, são necessários pelo menos cinco sintomas, sendo ao menos um emocional, presentes na maioria dos ciclos e com impacto real na vida daquela mulher.
Ficar um pouco mais sensível ou desanimada antes de menstruar é comum. O sinal de alerta de que algo está errado é quando a tristeza é intensa, vem com desesperança ou pensamentos negativos sobre si mesma e faz você faltar ao trabalho, evitar pessoas ou entrar em conflitos que não aconteceriam no resto do mês. Nesses casos, vale buscar avaliação.
Importante: se em algum momento do ciclo surgirem pensamentos de morte ou de se machucar, procure ajuda imediatamente. Ligue para o CVV (188) ou procure um pronto-socorro.
O diagnóstico do TDPM é clínico, ou seja, se baseia numa boa conversa que identifica os sintomas e os impactos deles. Nenhum exame de sangue confirma o TDPM, e os hormônios costumam estar normais. O que se sabe hoje é que o cérebro de algumas mulheres é mais sensível às variações naturais dos hormônios ao longo do ciclo.
Por isso, o passo mais importante é o diário de sintomas: anotar, todos os dias, durante pelo menos dois ciclos, como estão o humor, a irritação, a ansiedade, o sono e o apetite, junto com as datas da menstruação. É esse registro que mostra se os sintomas se concentram mesmo antes da menstruação ou se são mais difusos ao longo do mês.
Os exames só entram se for para afastar outras causas que podem imitar o quadro, como alterações da tireoide e anemia.
Essa é uma das diferenças mais importantes, e mais esquecidas. No TDPM, existe uma semana “livre”, em que a mulher se sente bem. Quando os sintomas depressivos/ansiosos continuam problemáticos no resto do mês mas pioram antes da menstruação, o mais provável é outro quadro, como depressão, ansiedade ou transtorno bipolar com piora na fase pré-menstrual.
Uma revisão de estudos que acompanharam os sintomas ao longo do ciclo encontrou piora no período menstrual em vários transtornos, como depressão, pânico, transtornos alimentares e transtorno de personalidade borderline. A diferença importa porque o tratamento muda: nesses casos, o foco é tratar o transtorno de base. Se você já trata depressão ou ansiedade e percebe piora todo mês, vale contar isso na consulta. Saiba como a depressão pode aparecer perto da menopausa.
O tratamento é individual e costuma combinar mais de uma frente:
Nos casos que não melhoram, existem outras opções hormonais, sempre conduzidas em parceria entre psiquiatria e ginecologia. Ah! e quando o aumento do apetite antes da menstruação vira um problema à parte: Comer demais é sempre parte de um transtorno.
Se você se identificou com o conteúdo deste texto, comece um registro simples, no celular ou em um caderno:
Leve esse registro para a consulta. Ele encurta o caminho até o diagnóstico e já faz parte do tratamento. Se for a sua primeira vez com psiquiatra, veja como funciona a consulta psiquiátrica.
Atendo mulheres com TDPM e outras questões do ciclo menstrual em Brasília e online, em parceria com o seu ginecologista quando necessário. Conheça o atendimento em saúde mental da mulher.
Exame de sangue diagnostica TDPM? Não. Os hormônios costumam estar normais no TDPM. O diagnóstico é feito pela avaliação clínica e pelo registro diário dos sintomas durante pelo menos dois ciclos. Os exames servem para afastar outras causas, como alterações da tireoide.
Quem trata o TDPM: psiquiatra ou ginecologista? Os dois podem participar. Como os sintomas principais são emocionais, a avaliação psiquiátrica é importante, e o ginecologista entra quando há opção de tratamento hormonal. O ideal é que os dois conversem.
Anticoncepcional resolve o TDPM? Pode ajudar nos sintomas gerais, mas nem sempre melhora a tristeza e as mudanças de humor. Os antidepressivos da classe dos ISRS costumam ser a primeira opção de remédio, e a escolha é individual.
O TDPM tem cura? O TDPM acompanha os ciclos menstruais e costuma desaparecer na menopausa. Até lá, tem tratamento eficaz: a maioria das mulheres consegue voltar a ter uma rotina estável ao longo do mês.
Sentir-se mais sensível antes de menstruar é comum. Viver todo mês uma semana de tristeza, raiva ou ansiedade que muda quem você é não precisa ser normal. O TDPM tem nome, tem critérios e tem tratamento, e o primeiro passo pode ser tão simples quanto anotar o seu ciclo.
Se você se reconheceu neste texto, agende uma conversa.
Médica graduada pela Universidade Federal de Goiás. CRM DF 25961.
Psiquiatra pela FEPECS (Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde | SES-DF). RQE 21009.
Pós-graduada em Análise Comportamental Clínica pelo IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento).
Pós-graduada em Psiquiatria da Mulher (Anhanguera).
Management of Premenstrual Disorders: ACOG Clinical Practice Guideline No. 7. Obstet Gynecol. 2023;142(6):1516-1533. PubMed
Reilly TJ, Patel S, Unachukwu IC, et al. The prevalence of premenstrual dysphoric disorder: Systematic review and meta-analysis. J Affect Disord. 2024;349:534-540. PubMed
Jespersen C, Lauritsen MP, Frokjaer VG, Schroll JB. Selective serotonin reuptake inhibitors for premenstrual syndrome and premenstrual dysphoric disorder. Cochrane Database Syst Rev. 2024;8:CD001396. PubMed
Lopez LM, Kaptein AA, Helmerhorst FM. Oral contraceptives containing drospirenone for premenstrual syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2012;(2):CD006586. PubMed
Nolan LN, Hughes L. Premenstrual exacerbation of mental health disorders: a systematic review of prospective studies. Arch Womens Ment Health. 2022;25(5):831-852. PubMed